Uma vez assisti a uma entrevista com uma artista brasileira que morou muitos anos em Nova York. Perguntaram por que ela tinha voltado para o Brasil, e ela respondeu: “Cansei de me apresentar”.
Nunca mais esqueci essa frase. Se você está recomeçando a carreira no exterior, talvez também já tenha sentido esse cansaço.
No começo, achei exagero. A gente se apresenta em todo lugar, até no bar da esquina, no nosso próprio país. Mas, com o tempo, entendi o que ela quis dizer. O que cansa não é dizer o nome. É ter que traduzir quem a gente é, o tempo todo.
Quando o diploma não vale lá fora
Quando cheguei a Quebec, precisei fazer a equivalência do meu diploma. No Brasil, eu tinha feito gestão de recursos humanos num curso tecnólogo, um formato comum lá e quase desconhecido fora. Também tinha uma certificação do mercado financeiro, a CPA-20, de que eu me orgulhava bastante.
No Canadá, nada disso queria dizer muita coisa. As leis são outras, os produtos financeiros são outros, e eu teria que aprender tudo de novo. É o que acontece em tantas profissões: médicos, por exemplo, quase sempre precisam validar o diploma para voltar a trabalhar.
Na equivalência do meu diploma de RH, me encaixaram numa área administrativa. Lembro de ter pensado, com muita raiva: vou passar a vida batendo carimbo.
Recomeçar de baixo
Como eu ainda não falava bem francês, fui trabalhar numa loja de roupa grande, onde eu precisava falar pouco. Quando não entendia alguma coisa, respondia “oui” e saía correndo. (Contei essa história num vídeo no Instagram.)
Em Toronto, fiz muitas entrevistas, mas para as vagas que existiam, e não para o que eu tinha estudado no Brasil.
Eu também sou atriz. Tenho DRT, o registro profissional de artista no Brasil, que vale para sempre. A gente não precisa ser uma coisa só. Mas, no Canadá, esse registro não valia nada. Além do idioma, eu simplesmente não era considerada atriz. O máximo que consegui foram figurações em algumas séries da Netflix.
Conheço dentistas que viraram assistentes de dentista, engenheiros que viraram motoristas de aplicativo. Isso também acontece no Brasil, claro. Mas lá, quando um engenheiro conta que dirige por falta de oportunidade, as pessoas entendem, e ele continua sendo visto como engenheiro.
Fora, muitas vezes, a gente é desvalorizada automaticamente, como se o problema fosse a nossa capacidade, a nossa universidade, o nosso país. E, muitas vezes, é justamente o contrário. Em países como a França, onde o diploma pesa muito, ter estudado fora é quase como ter que provar a sua capacidade duas vezes.
Quando o título vai embora
E isso dói. Para muita gente, o título está ligado a quem a gente é. Um dia você é diretora; no outro, vendedora numa loja.
Vão embora o status, o reconhecimento, às vezes o brilho de uma carreira inteira. Mexe com a motivação, com a autoestima, e dá a impressão de que anos de trabalho foram para o lixo.
Não foram. E esse momento passa: com o tempo, a gente vai encontrando o caminho.
O caminho de volta
O reconhecimento, inclusive o meu próprio, só começou a voltar quando voltei para a universidade, em Toronto.
Nessa época, eu trabalhava num help desk, ajudando as lojas de uma rede a resolver problemas técnicos, algo que eu nunca tinha feito. O que me abriu essa porta foi o francês: eles precisavam de alguém que falasse as duas línguas. Fui aprendendo no caminho. Estudei gestão de projetos e, a partir daí, comecei a trabalhar na área.
Uma carreira não é mais uma escada
Hoje, ninguém espera mais que uma pessoa faça uma coisa só a vida inteira. As profissões mudam rápido, os cargos também. Aquela ideia de escolher uma profissão e subir uma escada até o topo quase não existe mais.
Por isso, eu vejo uma riqueza enorme em quem consegue navegar entre profissões, cargos e responsabilidades diferentes. Isso mostra a capacidade mais importante do mundo de hoje: saber se adaptar a situações, contextos e pessoas diferentes.
E a bagagem ajuda mais do que a gente imagina. Mesmo mudando de área, mesmo dando passos para trás, muito do que a gente aprendeu continua com a gente e aparece no dia a dia, às vezes sem que a gente perceba.
A liberdade de se apresentar de novo
Existe um lado de que pouco se fala. No Brasil, quando você diz onde estudou, onde nasceu ou onde trabalhou, a outra pessoa já faz uma ideia de você antes de você terminar a frase. O contexto te coloca numa caixinha.
Lá fora, ninguém conhece a sua faculdade, o seu bairro, a sua cidade. E isso, que tanto cansa, também liberta: você pode se apresentar do jeito que quer ser vista, e deixar que o seu trabalho fale antes da etiqueta.
Recomeçar, muitas vezes, é começar do zero. O importante é ter consciência dos passos que a gente dá para trás, para poder dar os próximos para frente.
Talvez seja isso que eu responderia àquela artista: cansa, sim, se apresentar o tempo todo. Mas cada apresentação também é uma chance de escolher quem a gente quer ser.
Leia também: Recomeçar a vida profissional em outro país: o que uma ponte me ensinou.
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