Em maio de 2024, defendi na França o meu mémoire de psicanálise na Fédération de Psychanalyse Contemporaine. Foi essa defesa, a soutenance, que me deu o título de psicanalista na França, depois de três anos de formação. O tema nasceu de uma pergunta que me acompanha há muito tempo: de que forma a sociedade contemporânea contribui para a sensação de vazio existencial?
Neste texto, conto como cheguei a essa pergunta, o que descobri no caminho e por que ela está no centro do trabalho que faço hoje com pessoas em transição de vida.
Vazio de quê?
Existem muitos tipos de vazio. O vazio deixado por alguém que vai embora. O vazio de uma relação que termina. O vazio de um sonho que murchou, ou de um futuro que imaginamos e que nunca vai acontecer. O vazio de quem sai de casa pela primeira vez, de quem muda de cidade, de país, de trabalho, de amigos.
Mesmo quando não é físico, o vazio é sentido no corpo. Ele aparece como cansaço, como falta de vontade, como a sensação de estar no lugar certo e, ainda assim, não estar inteiro.
Uma pesquisa que começou com a mudança de país
Em agosto de 2023, comecei a acompanhar brasileiros que tinham mudado de país. Eu queria entender o vazio deixado pela família, pelos amigos, pela cultura, pela comida, pelos cheiros, pelas estações, pelas piadas, pelo sentimento de pertencer. Como esse vazio afeta a vida de quem mora fora? Ele um dia é preenchido? Ou existe para sempre?
Ao longo dos atendimentos, percebi algo que mudou o rumo da pesquisa: o vazio não era só de quem tinha mudado de país. Ele estava presente na vida daquelas pessoas independentemente da cidade, da profissão, do motivo da mudança ou da classe social. E estava presente também ao nosso redor. Junto com ele, havia sempre uma busca: às vezes por algo concreto, às vezes por algo impossível de nomear, sem contornos. A busca por um ideal inalcançável que, um dia, preencheria esse vazio.
O peso dos ideais e a busca por reconhecimento
Muita gente cresce aprendendo que precisa ser a melhor: ter as melhores notas, a carreira mais bonita, o salário mais alto, a vida mais admirada. Funciona por um tempo. Até que uma grande mudança, como uma mudança de país, a maternidade, uma demissão ou o fim de uma relação, tira de cena os aplausos. E aí aparece a pergunta que dói: quem sou eu quando ninguém está me reconhecendo?
No mémoire, chamo isso de dificuldade de se permitir ser uma pessoa comum. Alguém que não precisa vencer todas as competições nem buscar reconhecimento o tempo todo. A psicanálise ajuda a olhar para esse ideal e perguntar: esse desejo é meu, ou é uma expectativa que eu herdei e passei a carregar como se fosse minha?
Uma sociedade que promete preencher todos os vazios
Para pensar o vazio existencial hoje, conversei com a psicanálise, com a filosofia e com a arte. Com a ideia de sociedade líquida de Zygmunt Bauman, em que tudo é rápido, provisório e substituível. Com a sociedade do espetáculo, em que a vida precisa ser mostrada para existir. Com Albert Camus e o absurdo de buscar sentido num mundo que não nos devolve respostas prontas. E com a pintura de Edward Hopper, o pintor da solidão, cujos personagens estão juntos e, ao mesmo tempo, completamente sozinhos. O quadro que escolhi para a capa do mémoire foi Nighthawks (1942): pessoas lado a lado num bar iluminado, no meio da noite, sem se olhar.
Vivemos cercados de facilidades, tecnologia e promessas de felicidade. Há sempre um produto, um especialista ou um novo objetivo prometendo preencher o vazio. Mas quanto mais tentamos preenchê-lo rapidamente, mais ele parece crescer.
A logoterapia e a busca de sentido
Viktor Frankl, criador da logoterapia, mostrou que o ser humano consegue atravessar situações muito difíceis quando encontra um sentido para elas. O vazio existencial, para Frankl, aparece justamente quando esse sentido se perde. E o sentido não é algo que se compra ou que alguém entrega pronto: ele é encontrado, no que fazemos, no que vivemos, nas pessoas que amamos e na forma como escolhemos enfrentar o que não podemos mudar.
O que aprendi: não existe remédio para o vazio
A conclusão a que cheguei é simples, e ao mesmo tempo difícil de viver: não existe um remédio para o vazio, como muitos procuram. O que existe é a curiosidade, a criação, a busca e, principalmente, o encontro com o outro. Para mim, é isso que dá sentido à vida: é no encontro com o outro que existimos.
Reconectar-se com outras pessoas, criar, trabalhar em grupo, projetar um futuro e buscar algo maior do que nós mesmos são capacidades que todos temos. São elas que nos tiram do individualismo solitário que marca o nosso tempo.
Do vazio à travessia
Foi dessa pesquisa que nasceu a forma como trabalho hoje. Toda transição de vida abre um vazio: entre quem éramos e quem ainda não sabemos ser. A tentação é preenchê-lo correndo, com a próxima meta, o próximo emprego, a próxima mudança. Mas esse intervalo também pode ser um espaço para se escutar, separar o que é desejo seu do que é expectativa dos outros e reencontrar um sentido.
É isso que proponho na Travessia: um acompanhamento para atravessar esse meio do caminho com clareza, sem pressa de preencher o vazio, e dar o próximo passo a partir do que faz sentido para você.
Se você está vivendo uma transição e sente esse vazio, vamos conversar. A conversa inicial é gratuita.
O mémoire completo, «En quoi notre société contemporaine contribue-t-elle à la sensation de vide existentiel ?», foi escrito em francês. Se você quiser ler a versão completa, escreva para hello@vaniadellatorre.com.





