Se você mudou de país e sente que deixou para trás o reconhecimento que tinha no trabalho, o seu valor no mercado e até a confiança em si mesma, este texto é para você. Eu conheço bem essa sensação. E, para explicar de onde ela vem, preciso falar de uma ponte. Foi por causa dela que a palavra travessia entrou na minha vida, muito antes de virar nome de trabalho.
Eu nasci em São José do Rio Pardo, no interior de São Paulo, uma cidade cortada por um rio. A ponte que eu atravessava foi reconstruída por Euclides da Cunha depois de uma enchente, na mesma época em que ele escrevia Os Sertões, um dos livros mais importantes da literatura brasileira, traduzido para muitas línguas. É uma ponte metálica, antiga, estreita. Não passam dois carros ao mesmo tempo: uns passam, os outros esperam. Sempre achei isso bonito: até para atravessar, às vezes é preciso esperar a vez.
Do outro lado da ponte estava tudo o que despertava a minha curiosidade: a escola do ensino médio, o esporte, pessoas diferentes das que eu conhecia, um mundo que eu ainda não sabia como era. Eu ia e voltava, de dia, de noite e de madrugada, voltando das baladinhas. Por anos.
Com o tempo, passei a entender que eu atravessava também uma ponte simbólica, que me ligava a dois mundos diferentes, mas ao mesmo tempo unidos. Atravessar era ir conhecer. Voltar era lembrar de onde eu vinha. E foi assim, indo e voltando, que fui me tornando quem eu sou.
Outras pontes
Depois dessa vieram muitas outras: São Paulo, Quebec, Montreal, Toronto, a França. E em cada uma aquela sensação voltava, agora no trabalho.
Do lado de lá, as pessoas sabiam quem eu era: o que eu fazia, o que eu sabia, o caminho que eu tinha feito. Do lado de cá, ninguém sabia. E eu precisava provar tudo de novo, numa outra língua, numa nova cultura, numa outra empresa. Tantas vezes.
Gerenciar uma equipe em outra língua é perder um pedaço de quem a gente é. Basta um sotaque, uma palavra errada, e a gente sente que os outros nos acham menos capazes, mesmo quando não é verdade. Quantas vezes eu saí de uma reunião com raiva, sabendo que podia ter feito muito mais se a língua não tivesse travado. E, às vezes, trabalhar num cargo muito abaixo da minha capacidade, sabendo que podia ser muito mais. Essa frustração é dilacerante.
E tem os códigos que ninguém explica. Por vezes, achei que as pessoas no trabalho não gostavam de mim, ou que eu não cabia ali. Eu só não entendia ainda o jeito como elas se tratavam, nem que aquele ambiente era mais frio, diferente do que eu conhecia. E tantas outras situações que só quem passou por isso consegue entender. No país novo, não basta saber fazer o trabalho: a gente precisa provar que sabe se comunicar, se portar, e reconstruir a confiança para se sentir respeitada de novo.
Sem falar da profissão, que muitas vezes não é vista nem respeitada da mesma forma. Os títulos mudam, o diploma não vale, e às vezes é preciso voltar para a escola.
Quem muda de país conhece isso. A pergunta “e você, o que faz?” fica difícil de responder. A gente sente que deixou do outro lado da ponte uma parte de quem era. E se pergunta: eu ainda sou aquela profissional? Ou virei outra pessoa?
Com o tempo, eu entendi que o trabalho é um meio, não um fim. Mas, quando a gente sai do lugar que conhece e precisa se provar tudo de novo, o trabalho fica tão pesado e toma tanto espaço que vira um fim em si mesmo. A gente passa a trabalhar só pelo trabalho. Pelo menos no começo, não consegue deixá-lo no lugar dele.
E não é por acaso. A sociedade ainda dá ao trabalho um peso enorme: é ele que faz a gente existir, que nos dá crédito, em todos os sentidos. Sem um lugar no trabalho, é como se a gente não existisse. A nossa identidade passa a depender dele.
E, em outro país, o trabalho cobra muito mais do que o trabalho em si. Ele cobra uma reconexão com tudo: com a língua, com o diploma, com o reconhecimento, com o crédito que a gente tinha e que agora precisa reconstruir.
O que a ponte me ensinou
A gente não escolhe a margem onde nasce. Mas escolhe atravessar. E, depois de tantas pontes, aprendi que ninguém chega inteira do outro lado deixando a outra margem para trás. A gente chega inteira quando leva as duas.
O país muda, o cargo muda, a língua muda. Mas a experiência, o jeito de pensar e tudo o que a gente aprendeu atravessando vêm junto. O desafio é descobrir o que fazer com isso do lado de cá. E, como na ponte da minha cidade, cada travessia tem o seu tempo: às vezes a gente passa, às vezes a gente espera a vez.
Vamos conversar sobre isso?
No dia 28 de novembro faço a primeira Roda Travessia: “Eu era alguém lá. E aqui?”. É uma conversa online para mulheres que mudaram de país e sentem que, na vida profissional, está difícil atravessar essa ponte.
Vamos conversar sobre como é recomeçar no trabalho em outro país, e sobre como você se sente nisso: o que dói, o que ajuda, o cansaço de ter que provar tudo de novo e de se fazer conhecer outra vez. O foco não é o seu currículo. É você.
São 75 minutos, num grupo pequeno de até 10 mulheres. É gratuita, com inscrição. Não precisa falar se não quiser. Às vezes, só ouvir já ajuda.
Sábado, 28 de novembro, às 15h na França (11h em Brasília). Saiba mais e inscreva-se.





